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A IDÉIA, PRECONCEITUOSA, DE QUE OS EXAMINADORES DE REDAÇÕES SÃO CONSERVADORES COM
Ter em mente uma nítida imagem de quem será seu leitor é condição central na produção de qualquer escrito. Cada texto, seja Grande Sertão: Veredas ou um mero cartaz, exige um dado tipo de colaboração da parte de quem o lê. Mesmo jornalistas tarimbados, os escritores mais universais, os articulistas mais populares,.dificilmente escrevem "para todo mundo" (querem ser compreendidos por todo mundo, algo muito diferente).
O que dizer, no entanto, daquele ser desconhecido do candidato que lê - e corrige - a redação de vestibulares e concursos? A banca examinadora. é muitas vezes idealizada por quem faz a prova. A imagem de especialistas antiquados, com ar grave e perfil conservador ou pouco tolerante a ousadias, tende a se reforçar em tal contexto.
José Gaston Hilgerd, professor do Mackenzie que atuou por trinta e três anos na Universidade de Passo Fundo (RS) quinze dos quais na organização da prova de língua portuguesa, considera séria a questão do destinatário da mensagem das redações.
-- Quando uma pessoa escreve fora do contesto de redação, ela o faz quando há o que dizer a alguém. Mas na situação de produção de discurso no vestibular, o candidato escreve por que motivos? Falta ao candidato clareza sobre quem é o destinatário.
A idealização que candidatos fazem do destinatário condicionaria o texto e estaria ligada, diz Hilgerd, à imagem que o candidato faz da instituição (no caso do vestibular, a universidade), vista como inacessível.
O destinatário é vagamente construído, na verdade. O candidato tem uma visão fantasiosa do que seja universidade. Ele a vê como algo distante, formal, que está em outro nível do cotidiano. É uma visão mítica da universidade que se vê refletida em muitas redações.
MENOS CARETA
Os critérios de correção de redação podem referendar essa visão. O aluno não tem coragem de incluir em seu texto uma expressão a gíria e da oralidade, mesmo a pertinente. Os melhores
vestibulares, no entanto, mostram que a banca pode ser muito mais avançada em questões de linguagem.
- O professor que corrige hoje as redações é mais mente aberta que o de antigamente. Antes, bom texto era praticamente o que era escrito com correção gramatical, o resto era visto como conteúdo – diz Francisco Platão Savioli, coordenador de português.
Hoje, completa Savioli, a correção gramatical é vista como necessária, mas não suficiente. Além dela, é preciso que o candidato se mostre capaz de direcionar todos os recursos de que dispõe para o resultado pretendido.
Os membros da banca que elabora a prova, da que dá cursos de formação a corretores e da que propriamente corrige redações são em geral professores calejados na sala de aula ou na pesquisa nas áreas de leitura e produção de texto.
Parte deles atua profissionalmente nas instituições que promovem concursos.
Tendem, nesses casos, a refletir o avanço na pesquisa da linguagem que essas instituições têm promovido. Hoje, a ciência de ponta na área de Letras e Lingüística textual intensificou-se e é natural que o perfil dos examinadores de provas de redação seja menos “careta” do que se imagina.
- É possível imaginar que os corretores estejam mais atentos às variações de linguagem que não se enquadrariam no rigor formal das gerações passadas. Eles podem entender os jogos e os recursos de linguagem pertinentes e por isso, são mais eficientes na comunicação – diz Hilgerd.
ENEM
Recursos dos mais variados têm sido usados pelos candidatos na hora da redação para driblar possíveis dificuldades. Mas os textos que não seguem o que é pedido não são nem considerados. Nas provas do Enem, por exemplo, nem os que chegam a comover os avaliadores são bem-sucedidos se fogem à proposta. Reginaldo Pinto de Carvalho, o professor da USP que foi coordenador da correção das redações do exame entre 1999 e 2005, se recorda de uma redação que era um desabafo eloqüente, capaz de emocionar os avaliadores. Mas nem assim ganhou nota:
- Lembro também de cartas ao presidente e redações em outros idiomas, como uma que levei um tempo para descobrir que estava escrita na língua indígena, além de narrações e poesias, quando não era isso o que se pedia na prova. Essas opções sempre levam à nota zero – conta.
Um exemplo extremo de redação “camicase”, candidato cria composição de frases e desenhos.
CAMICASES
Tentativas como essas são fruto da idealização a fórceps que os candidatos fazem, do tipo de leito que imaginam compor as bancas examinadoras. Ao tentar surpreendê-lo, muitos apostam numa originalidade fora de propósito, que o professor Rogério Chociay e pesquisador da UNESP (especializado em vestibulares) chama de redações “camicases”, em Redação no vestibular da UNESP: a dissertação (Fundação Vunesp, 2004).
Como a do aluno que escreveu “Deu branco” nove vezes e encerrou seu recado com “Infelizmente, deu branco”.
Chociay classifica as redações segundo graus de desempenho e performance, partindo de exemplos pinçados de redações de vestibulandos da UNESP, da qual foi corretor. Ele reafirma que, para obter um ótimo desempenho, o candidato deve pôr em jogo em seu texto os seguintes ingredientes, que são efetivamente considerados por bancas de correção:
O QUE AS BANCAS CONDENAM
Segundo Rogério Chociay, autor da Redação no vestibular da UNESP a dissertação (Fundação Vunesp, 2004), há quatro tipos básicos de candidatos em provas de redação: os que sabem redigir muito bem; os que sabem redigir bem; os que redigem com dificuldade e os que não sabem redigir.
Entre os erros mais comuns, descartados de cara pelas bancas de correção de texto estão:
EXERCÍCIO DE TEXTO
Ao elaborar os temas das redações, as bancas tendem a levar em conta os objetivos específicos de permitir que o candidato faça um exercício de leitura, seleção de informação e elementos relevantes, estabelecimento de relações e elaboração de hipóteses. Espera-se dele um esforço de linguagem para que sua proposição se torne mais aceitável que a proposição concorrente.
A redação (dissertação) serve para que o aluno demonstre autonomia de raciocínio, para que explore seus conhecimentos, consiga arregimentar dados e escolha os mais significantes. Em provas como a da Unicamp, modelo de redação com mais de um gênero (dissertação, narração, carta argumentativa), a banca pressupõe que o candidato que escreve o texto argumentativo seja bem informado e, por isso, tenha melhores condições de lidar com temas atuais acompanhados de uma coletânea representativa de algum assunto relevante ou polêmico que tenha merecido destaque nos órgãos de divulgação.
Se a escolha é por um tema no gênero narrativo, a banca não espera do candidato que ele simplesmente escreva uma história, mas que demonstre a capacidade de lidar com os elementos que caracterizam o texto narrativo (personagens, cenário, tempo da narrativa, foco narrativo). E de integrá-los ao enredo sugerido pelo tema e coletânea propostos.
EM DUPLAS
Em geral, os corretores de grandes vestibulares brasileiros são organizados em duplas, mas a identidade de cada integrante de uma dupla é mantida em segredo mesmo para seu parceiro. Nos casos de notas consideradas divergentes, segundo critérios estatísticos, submete-se a redação a uma terceira correção. Os corretores participam, anualmente, de cursos preparatórios. Esses procedimentos, em princípio, garantem uma correção mais flexível em relação a diferentes concepções de linguagem. Afinal, para identificar o que é pertinente numa forma desviante é preciso ter boa formação lingüística e a tomada de consciência desses critérios. O treinamento para utilização da grade de correção – que detalha os parâmetros para atribuição de pontos por item – garante uma avaliação o mais objetiva possível de cada redação.
- As bancas de hoje gostam de ousadia. Mas o candidato deve ousar dentro da lógica, não bobamente. Deve ser ousado, sem sair da proposta feita pelo enunciado da redação. Com isso, vai fazer um texto mais livre – diz Maria Thereza Fraga Rocco, assessora especial da direção da FUVEST e responsável pela organização da prova de português e redação.
A banca, enfim, quer qualidade, não necessariamente perfeição, pois a situação vivida por um candidato durante uma prova de redação é excepcional, não garante tempo para criar outras versões ou consulta a fontes que não as dadas por um enunciado durante o exame. No jogo argumentativo proposto ao aluno, o auditório é seleto, compreensivo até certo limite.
Até o ano passado , a primeira fase do Vestibular Nacional Unicamp se compunha de 12 questões dissertativas e uma redação, em que o candidato selecionava uma de três propostas (Dissertação, Narrativa ou Carta) e preparava apenas um texto. A partir do próximo processo seletivo, o Vestibular Nacional Unicamp 2011, o candidato será solicitado a produzir três textos de gêneros diversos, todos de execução obrigatória.
O número de questões passará de 12 questões dissertativas para 48 questões de múltipla escolha. As questões de múltipla escolha da primeira fase serão elaboradas com base nos conteúdos das diversas áreas do conhecimento desenvolvidas no ensino médio: Matemática; Ciências Humanas, Artes e Humanidades, incluindo Geografia, História e introduzindo-se Filosofia, Sociologia e Artes à medida que estas disciplinas forem incorporadas de forma plena aos currículos do ensino médio; Ciências da Natureza, incluindo Ciências Biológicas, Física e Química. Assim como no simulado, o tempo de duração da prova da primeira fase passará de quatro para cinco horas.
As inscrições para o Vestibular Unicamp 2011 serão realizadas no período de 23 de agosto a 8 de outubro, exclusivamente na página eletrônica da Comvest.